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O bem comum acima de qualquer interesse
(...) O objetivo específico do Movimento Político pela Unidade, do qual participam políticos filiados em diversos partidos, é ajudar e ajudar-se a ser, antes de tudo, pessoas que realizam a fraternidade, pois acreditam nos valores profundos, eternos do homem, e depois atuam na política.
Não se trata de um novo partido, mas da proposta de um estilo de vida que permite à política atingir seu objetivo, o bem comum. Gostaríamos de propor a todos que atuam na política uma espécie de pacto de fraternidade, um compromisso que coloque o bem comum acima de qualquer interesse particular, individual ou de grupo, de classe ou de partido.
Formulado esse pacto, o que a fraternidade pode realizar de “novo” na política?
A fraternidade universal oferece possibilidades surpreendentes: permite compreender e assimilar o ponto de vista do outro, de modo que nenhum interesse, nenhuma exigência sejam ignorados; reconstrói o tecido social e confere novos significados à liberdade e à igualdade; permite aproveitar e valorizar certas experiências humanas que poderiam levar a conflitos irrecuperáveis; consolida a consciência a respeito da importância dos organismos internacionais e dos processos que buscam a superação de barreiras e novas etapas pela unidade da família humana.
A fraternidade é um compromisso que favorece o desenvolvimento autenticamente humano do país, sem isolar as categorias mais frágeis, sem excluir ninguém do bem-estar nem criar novas formas de pobreza; defende os direitos da cidadania e facilita o acesso a eles, proporcionando esperança a todos que almejam uma vida digna; estimula a investigação científica e o desenvolvimento de novas tecnologias, protegendo a dignidade do ser humano do primeiro ao último instante de vida; oferece as condições de exercer a própria liberdade de opção a todos que almejam o desenvolvimento pessoal, de modo que, assumindo suas responsabilidades, cheguem a atuar completamente a própria capacidade de amar, inscrita no DNA de cada ser humano.
A fraternidade permite introduzir novos princípios no trabalho político, de tal modo que a ação do governo nunca seja contra alguém, ou apenas expressão de uma parte, pois somente as duas partes juntas podem garantir a soberania dos cidadãos.
E ainda, a fraternidade possibilita estabelecer um relacionamento de diálogo entre eleito e cidadãos do qual podem se originar programas de colaboração entre a sociedade civil e política. O político poderá manter mais facilmente os compromissos assumidos, prestando contas do que faz, e os cidadãos o acompanharão ao longo do mandato. Supera-se, assim, a separação entre sociedade e política, e o eleito não fica sozinho, mas torna-se expressão de uma comunidade na qual permanece profundamente enraizado. A comunidade, por sua vez, através dele adquire a dimensão de nação.
(...) Os partidos poderiam renovar-se mais facilmente e descobrir a grandeza de sua função, uma vez que não nasceram por acaso, mas como fruto de uma exigência histórica, de uma necessidade comum de afirmar um valor e seriam impulsionados a ressaltar a própria inspiração original, seus valores fundamentais. Ao mesmo tempo, cada partido reconheceria os valores e as funções dos outros partidos, estimulando-os, também através da crítica feita por amor, a exprimirem sua verdadeira identidade e exercerem a ação que deles se espera.
Em linhas gerais, é este o ideal do Movimento da Unidade, a Fraternidade Universal, que propõe e procura praticar o aparente paradoxo de amar o partido alheio como o próprio, pois o bem do país precisa da ação de todos.
A política, porém, não é exercida somente nos partidos e instituições. Tudo o que se vive na sociedade civil, nas associações e na economia tem uma dimensão política. Se o bem comum é função específica da instituição política, é também verdade que só pode ser construído com a contribuição de todos os agentes sociais. Por outro lado, é pelo bem comum garantido pela política que os outros bens podem ser atingidos e preservados.
A fraternidade não deve ser "um fator a mais" na política, mas seu fundamento, aquele que define métodos e objetivos. Só assim a política conquista seu verdadeiro sentido, que é serviço à comunidade e o cidadão torna-se sujeito ativo.
Esta é a política que vale a pena ser vivida, capaz de aumentar a envergadura daqueles que nela se engajam, dando sentido às suas vidas, fazendo deles pontos de referência seguros para os cidadãos, particularmente os mais fracos. É dessa política verdadeira que o povo precisa.
O poder confere força, mas o amor dá autoridade. Políticos desse tipo promovem obras que permanecerão e serão lembrados por elas. As gerações futuras não lhes serão gratas por terem tido o poder nas mãos, mas pelo modo como o administraram.
Com essa nova visão, e esse espírito, os políticos que optam pela fraternidade devem realizar o trabalho político, certos de que a eficácia das próprias ações será multiplicada pela intervenção de Deus na história, que abre caminhos impensados, criando soluções para as situações mais difíceis e aparentemente sem saída...
Alguém pode dizer: praticar a fraternidade não é fácil. É verdade! Aliás, pessoas competentes e inteligentes estão convictas de que a fraternidade é o assunto mais intrincado, o argumento mais chocante, o único realmente revolucionário, a ponto de ser sempre destruído por conflitos e guerras.
Entretanto, até mesmo grandes pensadores não cristãos estimulam a humanidade a amar. Augusto Comte, por exemplo, propõe uma religião completamente terrena, que tem por moral o altruísmo e uma regra fundamental: "viver pelo outro". E Feuerbach, um dos pais do ateísmo moderno, afirma: «A lei principal e suprema deve ser o amor do homem pelo homem». Isso porque existem verdades substanciais inscritas na natureza humana e descobertas, inclusive, no plano racional. Sêneca, filósofo pagão, pensava: «Somos membros de um grande corpo: a natureza nos gerou como irmãos». Falam de uma fraternidade a ser alcançada unicamente com o esforço humano. (...)
Mas, sabemos que, antes de ser uma exigência humana, a Fraternidade é um objetivo político, é o projeto de Deus para a humanidade. Para realizar o plano do Pai, Jesus morreu em favor de cada ser humano, restabelecendo a ligação de todos num único Pai. Esse projeto, porém, só se realizará na atividade política, se aqueles que têm fé não deixarem de lado o aspecto religioso e aqueles que não possuem uma opção religiosa, o respeito pelos valores profundos que transcendem a política e devem regular a vida social.
Igino Giordani, parlamentar italiano e co-fundador do Movimento dos Focolares, escreveu: «Quando ultrapassamos os batentes de casa e mergulhamos no mundo, a fé não deve ficar pendurada como um boné desbotado num cabide atrás da porta» . E, referindo-se à sua ação política, conta: «Um dia, alguém do alto escalão me disse: "Aqui estamos no Parlamento, não na Igreja". Eu repliquei: “E qual é o problema? Ao entrar aqui devemos nos despir de nossa roupa de cristãos?”».
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